Lucro recorde, inadimplência recorde: os bancos vivem à beira do penhasco
Em 2025, os bancos brasileiros lucraram R$ 255 bilhões — o maior valor já registrado — com ROE de 16,76%. No mesmo período, a inadimplência de pessoa física bateu recorde histórico e 81,7 milhões de adultos entraram o ano com dívidas em atraso. “Estamos caminhando muito próximos ao penhasco”, resume um analista do UBS BB. Aqui, como as duas curvas convivem — e até quando.
Lucro recorde do setor (2025)
R$ 255 bi
Maior lucro já registrado pelo sistema financeiro nacional
+ ROE de 16,76% — maior desde 2021
Inadimplência de pessoa física
5,6%
Recorde histórico, acima da recessão de 2015-16 e da pandemia
Mantida em maio e junho de 2026
Brasileiros com dívida em atraso
81,7 mi
Quase metade da população adulta, em fevereiro
+ 8,9 milhões de empresas inadimplentes
Selic
14,75% a.a.
Após cortes, ainda no maior patamar em duas décadas
Guerra no Irã ameaça ritmo de novos cortes
“Estamos caminhando muito próximos ao penhasco.” A frase é de Thiago Batista, analista do UBS BB, e resume o paradoxo que define o setor bancário brasileiro em 2026: os quatro maiores bancos somaram lucro recorde de R$ 255 bilhões em 2025, com retorno sobre patrimônio (ROE) de 16,76% — o maior desde 2021 — no mesmo ano em que a inadimplência de pessoa física bateu o maior nível já registrado pelo Banco Central.
Os números do outro lado da equação são igualmente extremos. Em fevereiro, 81,7 milhões de adultos — quase metade da população adulta do país — tinham alguma dívida em atraso; o Brasil fechou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes. A inadimplência do crédito livre chegou a 6,4% em julho, a maior desde março de 2011, com taxa média de 47,7% ao ano para pessoa física — e crédito renegociado voltando a atrasar mais de 90 dias em 9,8% dos casos, contra apenas 3% em 2023. As famílias já comprometem cerca de 29% da renda só com o serviço da dívida.
A explicação para o lucro recorde em meio a esse cenário está na engenharia do spread bancário: cerca de 80% do spread é composto por inadimplência, despesas administrativas e tributos — ou seja, o risco de calote já vem embutido no preço antes de o crédito ser concedido. Rotativo do cartão de crédito passa de 400% ao ano; cheque especial, de 100% ao ano. Os quatro maiores bancos controlam quase 60% do mercado de crédito, o que lhes dá poder de precificação que bancos menores não têm.
Mas a exposição ao risco não é igual entre os bancos. Itaú mantém postura mais conservadora e atravessou ciclos anteriores com menos solavancos; Bradesco e Santander vêm reduzindo exposição a clientes de maior risco e migrando a carteira para renda mais alta. Já Nubank concentra a maior exposição a crédito de varejo de renda mais baixa — justamente o segmento mais pressionado —, o Banco do Brasil carrega risco agro e político, e o BTG Pactual, após absorver o Banco Pan, tem exposição mista e menos transparência sobre a carteira herdada.
O crédito para 2026 deve crescer 9%, abaixo dos 10,3% de 2025, e três gigantes corporativos — Raízen, Braskem e GPA — já negociam reestruturação de dívida, com exposição combinada de cerca de US$ 15,5 bilhões. Milton Maluhy, CEO do Itaú, chamou atenção para o fato de o brasileiro médio já ter cerca de seis cartões de crédito; Carlos Muñiz, CFO do Santander, disse não estar otimista com recuperação de margem antes do início de 2027.
Do crédito total ao que já está em atraso
Cada filtro isola uma camada da carteira até sobrar o volume que hoje pressiona o balanço dos bancos.
Carteira total de crédito do Sistema Financeiro Nacional
R$ 7,4 tri
Saldo total de crédito no país, somando pessoa física, jurídica e financiamento habitacional.
Banco Central do Brasil, jun. 2026
Descontar crédito corporativo saudável e financiamento com garantia real
Grande parte da carteira jurídica e o crédito habitacional têm colateral e risco de perda muito menor — não é o que está pressionando os balanços agora.
Carteira de crédito a pessoas físicas
R$ 4,6 tri
Fatia da carteira total emprestada diretamente a famílias — cartão, consignado, cheque especial, financiamento de veículo e crédito pessoal.
Banco Central do Brasil — estoque de crédito para pessoa física, jul. 2026
Descontar parcelas em dia — isolar só o estoque hoje inadimplente
Aplicamos a taxa recorde de inadimplência de pessoa física (5,6%) sobre o estoque total de crédito a famílias. premissa Ray
Volume de crédito a pessoa física hoje em inadimplência
R$ 257 bi
É esse o bloco que obriga os bancos a provisionar mais, mesmo lucrando recorde — e o que os CFOs monitoram teleconferência após teleconferência.
Estimativa Ray Consulting: 5,6% sobre R$ 4,6 tri (BCB, jun.-jul. 2026)
Quem disputa este mercado
Mapeamento dos elos da cadeia por trás do paradoxo entre lucro recorde e inadimplência recorde.
Bancos incumbentes
60%
Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil controlam quase 60% do mercado de crédito no país.
Fintechs & bancos digitais
Nubank
Maior exposição a crédito de varejo de renda mais baixa — o segmento mais pressionado pela inadimplência.
Tomadores — pessoa física
81,7 mi
Adultos brasileiros com dívida em atraso em fevereiro — quase metade da população adulta.
Empresas em reestruturação
US$ 15,5 bi
Exposição combinada de dívida de Raízen, Braskem e GPA, três gigantes renegociando passivos.
Banco Central & política monetária
14,75%
Selic após cortes — ritmo de novas quedas ameaçado pela guerra no Irã e pelo petróleo.
A pauta é definida por quem lê
Perguntas enviadas por executivos do setor, respondidas publicamente.
“Se a inadimplência bate recorde atrás de recorde, por que o lucro dos bancos também bate recorde?”
CFO · Gestora de Crédito Privado · São Paulo
Porque o risco já está precificado antes do empréstimo sair do caixa. Cerca de 80% do spread bancário no Brasil é composto por inadimplência esperada, despesas administrativas e tributos — o banco cobra a perda futura adiantado, no rotativo do cartão (acima de 400% ao ano) e no cheque especial (acima de 100%). Some a isso a concentração: quatro bancos controlam 60% do crédito e migraram a carteira para clientes de renda mais alta, deixando o risco de cauda mais concentrado em quem tem menos poder de precificação, como Nubank e BTG-Pan. O lucro recorde não contradiz a inadimplência recorde — ele é, em parte, construído em cima dela.
Guilherme Bastos
“Vale a pena aumentar exposição a crédito consignado e PME agora, ou ainda é cedo demais?”
Diretor de Crédito · Banco Médio · Região Sul
Eu esperaria pelo menos até o primeiro trimestre de 2027 antes de acelerar — é a mesma leitura que o CFO do Santander deu publicamente. O dado que eu observaria de perto não é a inadimplência nova, e sim a renegociada: 9,8% das dívidas renegociadas já voltam a atrasar mais de 90 dias, contra 3% em 2023 — sinal de que parte da carteira está sendo empurrada com a barriga, não sanada. Some a isso três reestruturações corporativas em andamento (Raízen, Braskem, GPA) como indicador antecedente de estresse de crédito. Dá para crescer, mas com garantia real e cliente de renda mais alta — não é hora de perseguir volume no segmento mais frágil.
Guilherme Bastos
Em 2025, os bancos brasileiros lucraram R$ 255 bilhões — o maior valor já registrado — com ROE de 16,76%. No mesmo período, a inadimplência de pessoa física bateu recorde histórico e 81,7 milhões de adultos entraram o ano com dívidas em atraso. “Estamos caminhando muito próximos ao penhasco”, resume um analista do UBS BB.…