Depois de 28 anos de casa, a Heineken chama um forasteiro para cortar o excesso
Pela primeira vez em sua história, a Heineken vai entregar o comando a alguém de fora da cervejaria: Rafael “Rafa” Oliveira, hoje CEO da JDE Peet’s, assume em outubro sobre uma empresa que já começou, sozinha, a cortar 6 mil postos de trabalho antes mesmo de ele chegar.
Corte de quadro
5.000–6.000
postos eliminados até 2027, cerca de 7% do quadro global
base atual: ~87 mil funcionários
Lucro operacional 2025
€4,39 bi
lucro operacional ajustado, alta de 4,4% sobre 2024
margem +41 pontos-base
Guidance ebit 2026
2%–6%
faixa revisada para baixo — era 4%–8% no ano anterior
1ª meta sob a nova liderança
Volume total 2025
-1,2%
queda de volume apesar da receita líquida subir 1,6%
premiumização compensa parte da perda
Em janeiro, Dolf van den Brink surpreendeu o mercado ao anunciar saída da Heineken depois de quase seis anos como CEO e mais de 28 dentro de casa — a renúncia veio poucos meses depois de ele próprio ter apresentado a estratégia EverGreen 2030, o que deixou claro que a saída era sobre quem executa, não sobre o rumo escolhido. O conselho de supervisão, presidido por Peter Wennink e com aval da família controladora Heineken, optou então por romper um padrão de mais de 150 anos e foi buscar fora do setor cervejeiro: Rafa Oliveira vem da JDE Peet’s, empresa de café e chá, e antes passou por Kraft Heinz e Goldman Sachs.
O pano de fundo da troca é um plano de eficiência que já estava em curso antes de Oliveira aceitar o convite. A companhia anunciou o corte de 5.000 a 6.000 posições — quase 7% do quadro global de cerca de 87 mil pessoas — como parte de uma reestruturação que centraliza operações hoje relativamente autônomas por região e mira, segundo o CFO Harold van den Broek, cortes concentrados na Europa e em mercados menos estratégicos. Em 2025, o programa de produtividade já havia entregado mais de €500 milhões em economias brutas, contribuindo para os 41 pontos-base de expansão de margem — ou seja, o novo CEO herda uma reestruturação desenhada, não uma folha em branco.
A tensão fica visível no próprio guidance: a faixa de crescimento do lucro operacional para 2026 caiu para 2%-6%, ante 4%-8% no ciclo anterior, e analistas como Ed Mundy, da Jefferies, já classificaram a meta como discretamente aquém do esperado — avaliação que, para ele, faz sentido diante da transição de comando, já que não havia incentivo para uma meta agressiva logo antes da troca. O desempenho por região reforça o dilema: África e Oriente Médio cresceram 15,7% em receita e 62% em lucro operacional, enquanto Europa e Brasil seguiram fracos — o forasteiro chega, portanto, para decidir onde cortar sem destruir a única frente que está funcionando.
Quanto vale o corte que Rafa Oliveira precisa entregar
Dimensionamos aqui não o mercado de cerveja, mas a oportunidade de eficiência que justifica a troca de comando — do custo total operacional até o valor que a reestruturação realisticamente consegue destravar.
Base de custos operacionais globais
≈ €25 bi/ano
Custo total estimado de operação da Heineken — produção, logística, SG&A — sobre uma receita líquida da ordem de €30 bi e margem EBIT ajustada perto de 17%-18%.
Estimativa Ray Consulting sobre resultados FY25
Custos contratuais fixos
Removemos matéria-prima, contratos de longo prazo e obrigações regulatórias que não respondem a uma reestruturação de dois anos.
Custo endereçável pelo programa de produtividade
≈ €7-8 bi
Fatia de overhead, manufatura e funções corporativas elegível ao redesenho anunciado em outubro de 2025, quando a companhia centralizou operações antes autônomas por região.
Estimativa Ray sobre estrutura organizacional divulgada
Mercados estratégicos protegidos
Excluímos África e Oriente Médio — região que cresceu 15,7% em receita e 62% em lucro operacional — porque cortar ali destruiria a única frente em expansão clara premissa Ray
Economia anual perseguida pela reestruturação
€0,8-1 bi/ano
Run-rate estimado somando os mais de €500 milhões já capturados em 2025 aos ganhos esperados do corte de 5.000-6.000 posições até 2027 — a meta real que Oliveira herda para sustentar.
Modelo Ray Consulting a partir do guidance da companhia
Quem decide o próximo capítulo da Heineken
Os elos que mais pesam na execução do turnaround, da governança familiar ao mercado de capitais.
Governança
1ª vez
Após mais de 150 anos, a família controladora — liderada por Charlene de Carvalho-Heineken — aprova o primeiro CEO vindo de fora do grupo.
Novo comando
Out/26
Rafa Oliveira deixa a JDE Peet’s, empresa de café e chá, para assumir a cadeira em 1º de outubro, com passagens anteriores por Kraft Heinz e Goldman Sachs.
Operação regional
+15,7%
África e Oriente Médio puxam o resultado, enquanto Europa e Brasil seguem com desempenho fraco em volume e receita.
Concorrência
2ª maior
Heineken segue como vice-líder global do setor, disputando espaço com rivais mais enxutos e o avanço de cervejas premium e sem álcool.
Mercado de capitais
2-6%
Analistas, como a equipe da Jefferies, leem o novo guidance de lucro como um sinal de cautela típico de período de transição.
A pauta é definida por quem lê
Perguntas enviadas por executivos do setor, respondidas publicamente.
“Um CEO que nunca vendeu uma cerveja consegue cortar 6 mil postos sem quebrar a cultura da casa?”
CFO · Grupo de bebidas premium · Europa
Consegue mais fácil justamente por não carregar o peso da cultura interna. A resistência a reestruturação costuma vir de quem construiu o modelo que está sendo desmontado — Van den Brink tinha 28 anos de casa e mesmo assim preferiu sair a liderar esse corte pessoalmente. O risco real não é cultural, é de conhecimento operacional: Oliveira precisa aprender cerveja rápido o bastante para não delegar decisões críticas de mercado aos mesmos executivos regionais que o novo modelo pretende enxugar.
Guilherme Bastos
“Reduzir o quadro em 7% é eficiência real ou resposta a pressão de investidor de curto prazo?”
Investidor institucional · Fundo long-only · Amsterdã
Os primeiros €500 milhões de economia já foram capturados em 2025, antes de Oliveira sequer aceitar o cargo — o desenho é da gestão anterior, não uma resposta reativa do recém-chegado. O que vale acompanhar não é o número de demissões, mas a conversão de caixa, que caiu de 103% para 87% no último ano: se essa métrica não se recuperar junto com a margem, o corte de quadro terá sido custo sem eficiência.
Guilherme Bastos